Acho que você já se deu conta de que criar filhos é uma tarefa nada fácil, não é? E a única certeza que temos ao longo desse processo é que teremos acertos e muitos erros, mas esses erros não precisam ser em relação ao brincar das crianças. Vocês que me acompanham por aqui no @ateliematerno já devem ter me ouvido, inúmeras vezes, falar sobre a importância do brincar e como por meio dele as crianças aprendem a manipular objetos, resolver conflitos, negociar diferenças, usar a imaginação e relaxar. 

Acontece que a gente no desejo de sempre cuidar para que nada saia errado nos momentos de brincadeiras, ainda que inconscientemente, fazemos certas coisas que acabam mais por inibir do que deixar a criança se desenvolver. Aqui listei seis maneiras comuns pelas quais os pais acabam mais atrapalhando do que incentivando o desenvolvimento dos filhos através do brincar.

1. Dar muitos avisos

À medida que as crianças ouvem constantemente palavras de advertência, elas ficam com medo de tentar coisas novas. Esta é a última coisa que os pais devem desejar para seu filho! Uma criança deve estar cheia de curiosidade, confiante, quase destemida em sua exploração de coisas novas. Isso significa que não precisamos nos preocupar excessivamente com limpeza e higiene, afinal as crianças e suas roupas são laváveis. Eu sei que às vezes nos preocupamos demais e ficamos com medo de acidentes, mas essa insegurança não ajuda muito a criança. É claro que vamos ficar atentos ao ambiente em que a criança está brincando, mas sem preocupações excessivas.

2. Impedir o processo criativo, fornecendo soluções imediatas.

Quando uma criança mostra interesse em um tópico ou programa de TV, os pais geralmente correm para comprar fantasias e brinquedos que falem sobre o tema ou personagem. Isso pode ser legal para elas, mas eventualmente se torna chato. A gente já sabe que as crianças simbolizam suas experiências por meio da brincadeira e o brincar, em si, leva tempo para se configurar e planejar. Ele se desenvolve organicamente e raramente pode ser duplicado. Pode envolver tensão e conflito saudáveis ​​entre as crianças enquanto trocam ideias e opiniões. Logo, quando corremos para comprar a fantasia do seu personagem de desenho favorito, apressamos as coisas e impedimos o fantasiar das crianças e sua criatividade. Claro que essa dica vale também para os brinquedos que divertem mais do que desafiam e não podem ser modificados em relação ao seu uso original.

3. Agendas lotadas

Este é provavelmente o maior inibidor do brincar atualmente. A agenda das crianças está tão cheia de atividades extracurriculares que é difícil encontrar tempo para brincar; ou, quando ocorre, é programado com dia e hora marcados. Isso impede o verdadeiro jogo criativo, que frequentemente nasce do tédio.

4. Permitir uso demasiado da tecnologia

Poucas crianças desligam as telas voluntariamente. Tablets, celulares e jogos de computador são altamente viciantes e mais imediatamente gratificantes do que descobrir o que fazer com uma pilha de Legos ou inventar um jogo de quintal. Colocando limitações estritas no tempo de tela, os pais forçam seus filhos a criar alternativas e, eventualmente, se divertir mais nesse processo.

5. Ficar sempre disponível enquanto a criança brinca.

Você pode fazer outras coisas enquanto as crianças estiverem brincando. Claro, certificando-se que o lugar onde estão é seguro e com alguma atenção quando o silêncio tomar conta da casa (risos). Não seja aquela mãe ou aquele pai que fica por perto para garantir que tudo corra bem. Não vai, nem deveria. Permita que as crianças se envolvam em conflitos e, então, dê-lhes a satisfação de resolvê-los mais independentemente.

Por outro lado, nunca pense que você é responsável por acabar com o tédio que seu filho sente. Isso não é verdade. As crianças precisam descobrir uma solução para seu próprio tédio – e farão isso, se tiverem tempo, ferramentas e privacidade para fazê-lo.

6. Insistir no uso dos objetos da casa para os fins pretendidos.

Relaxe! Você tem filhos pequenos em casa, o que significa que as coisas não ficarão todas arrumadinhas o tempo todo. Se as crianças querem transformar as almofadas do sofá em um forte, ok! Se elas tiverem a brilhante ideia de construir uma cabana com o lençol que usam para dormir, deixe que o façam. Se quiserem usar a vassoura para ser o cavalo dela, tudo bem. Eu sei que a gente fica de cabelo em pé, mas quando podamos isso o tempo todo, em todos os momentos, acabamos contribuindo para que o tédio se estabeleça sem possibilidade de a criança lidar com ele. Então, se dali algumas horas você não vai receber ninguém, por que não deixar a criatividade dos pequenos fluir?  É claro que, depois de brincar, elas precisam colocar todas as coisas no lugar.

Monica Pessanha é psicanalista de crianças, adolescentes e mães, palestrante, coautora do livro EDUCANDO FILHOS PARA A VIDA e colunista na revista CRESCER. Mãe da Melissa, uma menina que ama ler. É o tipo de mãe que acredita que enquanto os filhos crescem, nós crescemos também.