Uma palmadinha não faz mal? Hum… será? Por que quando nossas crianças, por alguma razão que elas não sabem nomear, são violentas/agressivas e nós, os adultos, reagimos impulsivamente com um tapa ou um grito forte o suficiente para interromper aquela atitude inadmissível? Mas, vamos lá: onde está a atitude inadmissível? Na criança que foi agressiva ou no adulto que reagiu agressivamente? Quem está agindo impulsivamente, sem controle das emoções, sem paciência?

O pediatra Daniel Becker nos responde a esta questão complexa.
Primeiramente, nós adultos, quando cometemos algum ato violento com nossas crianças, seja um tapinha, uma palmada, um grito, pegar forte no braço, etc., devemos reconhecer nosso erro. Para nós mesmos e para as nossas crianças. Culpar- se não vai ajudar muito, mas reconhecer o erro e aprender com ele é fundamental, aconselha o pediatra.

Sanitarista e pioneiro em pediatria integral no Brasil, Daniel Becker, nos fala da importância de ensinarmos as nossas crianças a nomear os sentimentos e os mesmos são legítimos. Como bem explica o pediatra, não controlamos o que sentimos, mas sim o que fazemos com as nossas emoções. É neste momento que entra a razão. E cabe aos adultos conversar com as crianças, ajudando a identificar os sentimentos e como operá-los.

A criança pode ficar com raiva do adulto que lhe tomou o celular ou algo do tipo, mas não pode bater. Não pode se jogar no chão e se machucar. E é com muita conversa e paciência que o adulto vai construir isso com a criança. Se colocando como o adulto que entende seus sentimentos e está ali para acolher e ajudá-lo a passar por isso, porque tudo passa, nós sabemos e ainda assim se para nós é difícil, imagina para os pequeninos que sequer sabem identificar o que estão sentindo?

Logo, este processo envolve muito a autoeducação. A maneira como nós adultos lidamos com os estresses, raivas, “birras”, violências de nossas crianças, vai educá-las. Estaremos mostrando a elas como resolvemos nossos conflitos e como lidamos com as nossas emoções.

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As ferramentas da Comunicação Não-Violenta, Disciplina Positiva e Criação com Apego, têm se mostrado eficazes e revolucionárias. São ferramentas práticas para auto formação humana e que contribuem para nossas conversações e relações.

Elisama Santos e Lígia Moreiras Sena são mães, ativistas e escritoras, que vem disseminando conhecimento sobre tais ferramentas e apoiando várias famílias que buscam construir relações mais saudáveis em seus seios familiares, através de cursos, palestras, livros, vídeos, e um vasto material disponíveis em suas redes e sites.

A lei da palmada que entrou em vigor em 2014, soma ao ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) como medidas preventivas, ou seja, que o Estado garanta e proteja as crianças e os adolescentes de violências físicas, verbais e psicológicas. Apesar da lei da palmada ter várias brechas e ser um debate no meio jurídico e civil, têm chamado atenção da sociedade para pensar a violência como justificativa para educar/corrigir uma criança ou adolescente.

E de onde vem essa prática de bater para educar? Não faz muito tempo que era comum as escolas usarem a palmatória nos alunos que cometiam erros ou desobedeciam. A advogada Danielli Xavier Freitas em sua pesquisa sobre a violência contra a criança e o adolescente no brasil: uma breve digressão histórica, nos revela que:

“os índios do Brasil nunca batem nos filhos por nenhuma coisa […] não tem pai que açoite o filho e falar alto e de forma ríspida a criança sente muito mais do que lhe bater”.
“A ideia de aplicação de castigos físicos e ameaças contra a criança, inserida no sistema educacional, foi introduzida no Brasil colonial pelos primeiros padres jesuítas da Companhia de Jesus em 1549, sendo reservado àqueles que faltavam à escola jesuítica as palmatórias e o tronco. Para os jesuítas, o mimo deveria ser repudiado, os vícios e pecados deveriam ser combatidos com açoites e castigos, neste cenário os espancamentos tinham como objetivo ensinar às crianças que a obediência aos pais era a única forma de escapar da punição divina. A reação indígena em relação à prática de espancamentos e castigos contra a crianças era de indignação e muitos abandonavam os estudos da doutrina de forma permanente”1.

Muito de nós fomos educados achando normal uma palmada, que é compreensível um adulto perder a paciência com a criança e gritar e lhe dar um tapa para acalmar a situação. No momento, até pode “acalmar a situação”, mas sabemos que a criança não está mais calma, e sim com medo ou assustada. Ela se sente incompreendida e culpada por ter provocado uma fúria numa pessoa que ela devota confiança, amor e admiração.

Portanto, em momentos de muita tensão e a paciência no limite, o pediatra nos recomenda: inspira, respira e não pira. Beba água. E conecte-se com a criança. Olhar nos olhos, falar num tom de voz tranquilo, porém com firmeza. Como dizia o revolucionário Che Guevara, endurecer sem perder a ternura. Não é fácil, mas é um exercício que trabalha nossa evolução pessoal e consequentemente social.

1 Freitas, Xavier Danielli. In: Um monstro esconde-se em casa. A violência doméstica contra crianças e adolescentes A violência doméstica cometida contra a criança e o adolescente possui importantes conseqüências na formação e estruturação de sua personalidade.
Publicado em 2014 e disponível em:
https://daniellixavierfreitas.jusbrasil.com.br/artigos/139169447/um-monstro-esconde-se-em-casa-a-violencia-domestica-contra-criancas-e-adolescentes

Maíra Castanheiro
Sou Escritora, Historiadora e tradutora. Aprendiz de jardineira Waldorf. Mãe de Mariaalice, que além de me ter feito mãe, me impulsionou a publicar meu primeiro livro: Para Maria Alice.
Em breve mais livros e mais livre.

www.aldeiadosaber.com