Quais são as suas memórias sobre as suas brincadeiras de infância?
Alguns de nós se lembrarão de esconde-esconde, casinha, pique pega, pique bandeira, pipa etc. Outros podem se lembrar das discussões sobre as regras dessas brincadeiras ou do revezamento na hora de pular corda e da criação de mundos imaginários com nossas bonecas e bonecos. Mas e seus filhos? As oportunidades que eles têm de brincar são iguais às suas? Muito provável que não.

O tempo para brincar é escasso para as crianças hoje em dia e as consequências ao longo da vida para elas, em termos de desenvolvimento, podem ser mais sérias do que muitas pessoas imaginam. Afinal, a falta de brincadeiras afeta o desenvolvimento emocional das crianças, levando ao aumento da ansiedade, depressão e problemas de atenção e autocontrole.

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Já falei em outros textos para vocês que a brincadeira ajuda a criança organizar simbolicamente suas angústias. Daí a importância das brincadeiras livres, aquelas em que a criança se auto-dirige, ao invés de ser dirigida por um adulto numa atividade organizada.
A criança que brinca livremente está mais preparada para os testes da vida, porque quando brinca, ela mesma precisa achar soluções para os problemas que surgem.

Ainda poderia dizer que esses momentos do brincar livre fornecem às crianças experiências de vida, sem as quais elas não podem se tornar adultos confiantes e competentes.
Para ajudar você entender melhor o que estou tentando dizer, vou falar sobre 4 benefícios do brincar livre e o impacto que ele pode ter na vida do seu filho quando se tornar um adulto. Vamos lá?!

1. Brincar dá às crianças a chance de encontrar e desenvolver uma conexão com seus próprios interesses.
À medida que escolhem as atividades que constituem o seu brincar livre, as crianças aprendem a se regular, perseguir e elaborar seus interesses de uma forma que possa sustentá-las por toda a vida. Se na escola, elas trabalham por notas e elogios e em e, em práticas esportivas, elas trabalham por elogios e troféus, no brincar livre, as crianças fazem o que querem, e o aprendizado e o crescimento psicológico resultante são subprodutos, não objetivos conscientes da atividade.

2. É através da brincadeira que as crianças aprendem primeiro a tomar decisões, resolver problemas, exercer autocontrole e seguir regras.
À medida que as crianças dirigem suas próprias brincadeiras e resolvem os problemas que surgem, elas devem exercer controle sobre si mesmas e, às vezes, aceitar restrições sobre seu próprio comportamento e seguir as regras se quiserem ser aceitas e ter sucesso no jogo.

Conforme as crianças lidam com seus ambientes físico e social por meio da brincadeira, elas podem adquirir uma sensação de domínio sobre seu mundo. É esse aspecto da brincadeira que oferece enormes benefícios psicológicos, ajudando a proteger as crianças da ansiedade e da depressão.
E olhem que interessante: a ansiedade e a depressão frequentemente ocorrem quando um indivíduo sente falta de controle sobre sua própria vida. Essa diminuição do tempo que as crianças têm para brincar livremente, também faz com que haja diminuição da capacidade de a criança exercer controle sobre algumas circunstâncias da vida, criando o cenário propício ao desenvolvimento da ansiedade e da depressão.

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3. As crianças aprendem a lidar com suas emoções, incluindo raiva e medo, durante as brincadeiras.
No brincar livre, as crianças se colocam em situações desafiadoras tanto física quanto socialmente e aprendem a controlar as emoções que surgem desses fatores estressantes. Elas encenam, balançam, escorregam e podem subir em brinquedos, escorregas e até em árvores. Sim, dá um pouco de medo sobretudo na gente que é mãe.
Mas essas atividades são divertidas a ponto de serem moderadamente assustadoras e ninguém, exceto a própria criança, sabe a dose certa.
A capacidade reduzida de regular as emoções pode ser um fator-chave no desenvolvimento de alguns transtornos de ansiedade. Pessoas que sofrem de transtornos de ansiedade descrevem a perda do controle emocional como um de seus maiores medos. Elas têm medo do próprio medo e, portanto, pequenos graus de medo gerado por situações levemente ameaçadoras levam a altos graus de medo gerado pelo medo da pessoa de perder o controle. Isso nos mostra que adultos que não tiveram a oportunidade de vivenciar e lidar com situações emocionais moderadamente desafiadoras durante as brincadeiras livres na infância correm mais risco de se sentirem ansiosos e oprimidos por situações que provocam emoções fortes na vida adulta.

4. Mais importante, brincar é uma fonte de felicidade.
Quando as crianças são questionadas sobre as atividades que lhes trazem felicidade, elas dizem que são mais felizes brincando com os amigos do que em qualquer outra situação. Talvez você tenha se sentido assim ao se lembrar de suas próprias experiências de brincadeira de infância no início do texto, lembra?

Quando os pais percebem o papel principal que a brincadeira livre pode desempenhar no desenvolvimento de crianças e adultos emocionalmente saudáveis, eles podem querer reavaliar as prioridades na vida de seus filhos.  As necessidades conflitantes de creche, sucesso acadêmico e nos esportes são, muitas vezes, no centro da vida da criança. Mas talvez os pais possam começar a identificar pequenas mudanças – como aberturas na programação, diminuir algumas atividades supervisionadas e, possivelmente, dar um pouco mais de espaço para brincar livre, que ajuda a desenvolver a imaginação, criatividade e saúde mental dos pequenos.

Monica Pessanha é psicanalista de crianças, adolescentes e mães, palestrante, coautora do livro EDUCANDO FILHOS PARA A VIDA e colunista na revista CRESCER. Mãe da Melissa, uma menina que ama ler. É o tipo de mãe que acredita que enquanto os filhos crescem, nós crescemos também.