Saiba como Virgínia e Kleber incluem os filhos nas decisões de família, gerando responsabilidade e autonomia

Virgínia Vianna e Kleber Marcos tornaram-se pais quando ela tinha 16 e ele 20. Sentindo-se livres de expectativas sobre como educariam seu filho, pois já eram considerados fora do padrão pela idade, os dois passaram a inventar o seu jeito de viver a parentalidade. Um dos experimentos que se consolidaram foi a tomada coletiva de decisões, diretamente relacionada ao desenvolvimento de responsabilidade e autonomia. É esse o tema do primeiro episódio da série Acontece lá em casa.

Hoje, os filhos João Vitor, Augusto e Maria Luiza estão com 20, 14 e 11, respectivamente. Mas, desde pequenos, foram acostumados a participar das pequenas e grandes decisões de família. O que será comprado no supermercado, por exemplo, é decidido a partir de opiniões de todos. Isso é saudável? Vamos reduzir o consumo de industrializados? Devemos priorizar produtos locais? São perguntas como essas que entram em discussão, seja em casa ou no corredor do supermercado.

Assim, os filhos se acostumaram a perceber o que está faltando em casa e pedir aos pais para repor – ou comprar eles mesmos, agora que já estão maiores. Virgínia conta que ela e Kleber nunca assumiram a postura de que seriam os únicos responsáveis por cuidar da gestão da casa, o que acabou por gerar um senso de responsabilidade compartilhada. Cozinhar também é tarefa de todos, o que cria espaço para autonomia e, mais uma vez, para comprometimento. Pois não é cozinhar apenas o que você está com vontade de comer, mas o que os outros querem comer. Então, quando almoçam juntos em casa, o cardápio é negociado.

A dinâmica se estende para as resoluções de grande porte. Recentemente, a família, que mora em um terreno com cachoeira de um bairro semirural, decidiu se mudar e comprou um apartamento mais perto do Centro de Florianópolis. Em ampla discussão, foi considerado que João Vitor e Augusto estudam na região central, mas Maria Luiza frequenta uma escola próxima ao local onde ainda moram. Como doula, Virgínia atende por toda a cidade. Kleber vai diariamente para sua empresa, que fica no meio do caminho. Por um lado, perderiam em contato com a natureza. Por outro, ganhariam em praticidade. Por um lado, se distanciariam geograficamente dos pais e avós. Por outro, se aproximariam dos amigos. Depois de muita ponderação, agora estão se preparando para a mudança, pois viram que seria o melhor para todos.

Mas nem todos os assuntos são fáceis, claro, e conflitos surgem. Quando é o caso, eles acreditam que ainda não estão prontos para decidir e reservam mais tempo para a reflexão. Um tema que está em pauta há alguns anos é uma grande viagem que Virgínia e Kleber gostariam de fazer com os filhos. Em praticamente todas as “assembleias semestrais de condomínio”, o tópico vem à tona, mas ainda não se chegou a um acordo.

“Essa prática também implica em abrir mão. Porque, como mãe e pai, se assumimos toda a responsabilidade, também temos o poder de decidir o que nos favorece de alguma forma. Mas quando compartilhamos, temos que perceber que às vezes faz mais sentido abrir mão do que para mim seria mais interessante, pois para o sistema todo não parece interessante”, observa Virgínia. Dependendo de como as vidas dos integrantes da família caminharem, pode ser que Virgínia e Kleber tenham que abrir mão de levar os filhos para a grande viagem. Mas isso é papo para as próximas assembleias de condomínio.