Petria Chaves conta como cria os filhos em São Paulo buscando garantir a simplicidade e o sentimento de pertencimento

Nunca consegui idealizar ou planejar minha vida por mais do que uma semana. Aquelas perguntas de RH: “O que você quer ser daqui a cinco anos?” nunca funcionaram para mim. Eu mal sei o que desejo ser agora, quem dirá daqui a tanto tempo.

Esse mistério da vida me encanta. Não saber onde estarei daqui cinco anos. Porque a vida é tão mágica que, de verdade, não me faz sentido querer planejar. Por outro lado, quando temos filhos, adquirimos a urgência de guardar dinheiro e fazer uma poupança. Eu e meu marido fizemos e guardamos, mas ainda estamos construindo o imaginário do que esperamos de nossa vida mais pra frente.

Dessa mesma forma, nunca pensei ou esquematizei o que eu quero da minha maternidade. Filhos “Waldorf” ou filhos “Harvard”? Ou os dois? O que eu realmente quero para meus filhos é uma vida potente e ética. Uma vida construída na verdade, de maneira a verdade seja sempre a melhor escolha pra eles. Aprender a se reconhecer, se aceitar e se gostar. Toda a riqueza virá daí. Material e espiritual.

Ficou difícil, hein? Como viver em tanta subjetividade?

Percebi que, nos últimos anos, nossas escolhas como família têm sido cada vez mais embasadas nessa subjetividade: o que de verdade me faz feliz? E o que de verdade me afasta de mim?

Vejo casais e famílias desesperados para viajar nas férias, para sair do ambiente onde vivem e convivem diariamente. Isso nunca foi uma prioridade para nós como família. Viajar pode até ser o palco de algumas vivências, já viajamos bastante. Mas essa não é a condição para que a gente possa viver a alegria do espanto que é estarmos juntos. Onde quer que eu esteja, estarei comigo e estarei de férias. Não planejamos o consumo do tempo em outro lugar que não seja aqui e agora.

Isso tem a ver também com a escolha que fizemos de onde morar. Quando Yael entrou na escola, percebemos que queríamos uma vida de pertencimento na cidade. Andar a pé, curtir nosso bairro, ter aquela sensação de liberdade ao se caminhar pelas ruas. Decidimos, então, mudar para pertinho de onde ela estuda. Agora, é só atravessar a rua. Nosso bairro é uma bolha, talvez seja um dos bairros mais caros de São Paulo. A escolha dessa mudança foi milimetricamente estudada, em seus prós e contras. No saldo dessa conta, vimos que isso nos traria mais simplicidade. E a simplicidade nos aproxima do que nos faz feliz.

A escolha da escola dela também foi elaborada em função disso, desse pertencimento, desse descomplicar. Yael estuda dentro de um clube. Queríamos espaço livre e verde para que ela pudesse aprender a alegria que é reconhecer um grande espaço como seu. O clube virou a minicidade dela. E nossa alegria é sentir que vivemos um microcosmo dentro da cidade. Não dá vontade de sair da nossa vida.

Foto: Arquivo pessoal

Vendemos nosso carro. Ao mudar para um local onde se faz tudo a pé, da escola ao supermercado e à academia, não fazia mais sentido manter um veículo só para se dizer que tem. Hoje, gastamos muito menos e temos muito mais liberdade e prazer no ir e vir. Se precisamos ir mais longe, alugamos um carro. Se temos algum compromisso nos arredores, fazemos à pé ou de táxi. A mobilidade em uma cidade como São Paulo é insuportável. A modernidade e a tecnologia de aplicativos nos dá uma comodidade hoje que nenhum morador de grande cidade tinha no passado, por isso fazia tanto sentido ter carro. Hoje, não.

Isso é inclusive uma tendência mundial. Uma pesquisa da Global Automotive Consumer da Deloitte mapeou jovens de 17 países. O estudo já aponta que a maioria das pessoas com idade em torno dos 25-30 anos se questiona entre a compra de um carro ou apenas o uso de aplicativos para se deslocar na cidade. Tendência na China, Índia e nos Estados Unidos.

Sinto que estar plugada com as nossas reais necessidades é também estar plugada com o que o mundo precisa. Com a vanguarda. Não quero lecionar para Yael e Max sobre sustentabilidade. Acho chatérrimo e mudo de canal quando alguém fala essa palavra. Sustentar um modelo de vida que me faz feliz tem muito mais sentido para mim. E quando digo “feliz”, estou falando sobre algo muito sensível e importante. Algo muito trabalhado para se chegar num ponto essencial e profundo para mim e dentro de mim. Diz respeito à minha liberdade e à minha potência de vida. Não é algo que diz respeito apenas ao meu prazer momentâneo, do que visto, do que como ou do que aparento ter. É algo que realmente me ajuda a ter os pés no chão e a certeza de que estou vivendo a minha história. Se me escraviza, não pode me fazer feliz.

Eu posso tudo, mas do que eu preciso?

Consumir não precisa ser o fim. Pode ser a ponte pra gente descobrir que uma vida mais legal não precisa do consumo de coisas para encobrir o que está chato ou monótono. E acho que essa vida se resume mesmo a aprender a fazer as escolhas corretas. Não sei se estarei tão afiada nessas escolhas daqui a cinco anos, mas sei que tenho a vida inteira para aprender a chegar mais perto desse ser mais essencial.

Foto: Anna Boga (capa)